Enquanto as operadoras de planos de saúde registraram o maior lucro da série histórica em 2025 — R$ 24,4 bilhões, um salto de 120,6% em relação a 2024 —, milhares de médicos estão rompendo contratos e descredenciando-se em massa dos convênios. O principal motivo é claro: repasses aviltantes que não cobrem os custos operacionais dos consultórios.
Os valores médios pagos por consulta, conforme dados e relatos que circulam entre entidades médicas e profissionais em 2025/2026, revelam a distorção:
- Clínica Geral e Pediatria: R$ 80 a R$ 130
- Ginecologia / Obstetrícia: R$ 90 a R$ 150
- Cardiologia e Ortopedia: R$ 100 a R$ 180
- Dermatologia e Oftalmologia: R$ 85 a R$ 160
- Psiquiatria e Neurologia: R$ 90 a R$ 170
No atendimento particular, os mesmos procedimentos custam entre R$ 250 e R$ 600, dependendo da especialidade e da cidade. Em muitos casos, os planos pagam 30% a 50% do valor de mercado — e frequentemente abaixo do custo real do médico.
Enquanto isso, a inflação médica (custos com aluguel, funcionários, equipamentos, impostos, software médico, seguros e insumos) tem ficado consistentemente acima da inflação geral, girando em torno de 10-12% ao ano. Os planos, por sua vez, reajustam as mensalidades dos beneficiários em 9% a 11% (ou mais) nos contratos coletivos. Aos médicos? Reajustes irrisórios, congelados ou inexistentes há anos.
Os números que simplesmente não fecham
Manter um consultório gera custos fixos elevados: aluguel de ponto comercial, salário de recepcionista e auxiliar, energia, internet, equipamentos, software de gestão, impostos (Simples ou Lucro Presumido), além de cursos de atualização e seguro de responsabilidade civil. Muitos médicos relatam que uma consulta de 20-30 minutos remunerada em R$ 100 mal cobre os custos variáveis e fixos rateados.
Resultado: o médico precisa atender um volume muito maior de pacientes por dia para equilibrar as contas, comprometendo a qualidade do atendimento. Ou descredencia o plano e migra para o particular, reembolso ou modelos diretos com pacientes.
Lucro recorde de um lado, precarização do outro
Em 2025, o setor de saúde suplementar faturou R$ 391,6 bilhões. A sinistralidade (percentual gasto com atendimento) caiu, o que significa que as operadoras gastaram proporcionalmente menos com consultas, exames e internações — e ficaram com mais margem. Três grandes operadoras concentraram quase metade do lucro total do setor.
Enquanto isso, os médicos — que são a base do atendimento — recebem migalhas e ainda enfrentam glosas (descontos unilaterais), atrasos de pagamento, burocracia excessiva e auditorias que questionam condutas clínicas.
Especialidades mais afetadas
As áreas mais sensíveis são as que mais sofrem:
- Pediatria e Obstetrícia — repasses baixos + alta responsabilidade e custo de estrutura.
- Cirurgias e Ortopedia — valores congelados que não acompanham a complexidade e os custos hospitalares.
- Psiquiatria e Neurologia — demanda crescente pós-pandemia com remuneração desproporcional.
Em várias regiões, redes credenciadas estão visivelmente esvaziadas. O paciente liga para o plano e ouve: “Não temos profissional disponível no momento”.
O paciente é quem mais perde
O descredenciamento em massa gera consequências diretas para quem paga o plano:
- Dificuldade crescente para marcar consultas com especialistas.
- Aumento do tempo de espera.
- Piora na qualidade do atendimento (consultas muito rápidas).
- Sobrecarga no SUS.
- Maior judicialização da saúde (pacientes processando planos para conseguir atendimento).
No final, o beneficiário paga mensalidades cada vez mais caras por um serviço que entrega cada vez menos.
Práticas que precisam acabar
Além dos repasses baixos, médicos denunciam:
- Glosas abusivas — descontos indevidos ou sem justificativa clara.
- Burocracia excessiva — autorizações demoradas para procedimentos simples.
- Limitação de tempo de consulta imposta indiretamente pela baixa remuneração.
- Falta de reajuste proporcional ao aumento de custos e à inflação médica.
O que precisa mudar urgentemente
As operadoras de planos de saúde não podem continuar lucrando recorde enquanto destroem a base do sistema: os médicos. É necessário:
- Reajustes mínimos obrigatórios nos repasses, atrelados à inflação médica.
- Maior transparência da ANS sobre critérios de remuneração e glosas.
- Redução drástica da burocracia e das negativas infundadas.
- Valorização real do ato médico, com tabelas atualizadas periodicamente.
Enquanto os planos não oferecerem condições dignas de trabalho, o movimento de descredenciamento vai continuar crescendo. E quem paga a conta, no final, é o paciente.
Os médicos não estão abandonando os planos por capricho. Estão abandonando um modelo que se tornou insustentável e injusto. Chegou a hora de os planos de saúde assumirem sua responsabilidade e pagarem valores compatíveis com a realidade dos custos médicos e da qualidade que prometem entregar.




